2.06.2009

Sonhos Fantásticos, de Colin Thompson


Colin Thompson é aquele tipo de autor que nos convida a mergulhar em seu universo, sem restrições, sem regras ou certezas. A história do jovem Max que, logo após perder o pai, é enviado para passar um tempo com a avó, em Savernake, um lugar onde tudo é possível é, sem dúvida, um dos textos mais empolgantes que li nos últimos meses. Thompson sabe ter bom humor, lidar com as questões do estranho e do fantástico, do mistério e da aventura psicológica de Max, como um mestre no gênero. É na gigantesca e misteriosa casa da avó, com seus infinitos cômodos, com o centenário gato Webster, o cão Neville e a Menina dos Sanduíches que se passa boa parte desta história. Imagens como a de um submarino de selos vermelhos encantam pela força do imaginário de Thompson que, diga-se de passagem, também é o ilustrador do livro.
O livro Sonhos Fantásticos (Brinque-Book), de Colin Thompson, já está entre os meus favoritos. Quero agora conhecer outros textos do autor. E vamos à leitura!

A Poção da Vida, de Luiz Braz e Tereza Yamashita

Acabo de ler A POÇÃO DA VIDA (LGE Editora), da dupla Tereza Yamashita e Luiz Bras.
Pense nos principais elementos dos contos de fada, numa lógica da mágica, da fantasia, do maravilhoso. Em reis, príncipes e princesas. Agora adicione um universo de fição científica com máquinas futuristas, um gato - meio gato meio homem - que é mago e narrador desta história, muito bom humor, um texto primoroso, um rei chamado Ruivo, bondoso, honesto e leal para com o seu povo, que faz um curso de magia por correspondência com o mago Merlin, e que tinha três filhos: Patinhas; que amava as finanças. Pardal; um inventor de máquinas malucas: bombaraques, motofotorrelógios, cabanapredicasas e muito mais. E Zulinha; uma princesinha doce e meiga que adorava os animais e as flores. Todos viviam num reino muito distante chamado Akiali. Um dia o rei resolve dividir o seu reino entre os três filhos. Bem, daí as coisas começam a se complicar e muita diversão, magia e atrapalhadas acontecem.
Aconselho à você que está lendo esta resenha a desvendar esse conto de fadas contemporâneo agora mesmo. Na verdade, Tereza e Luiz, esses dois magos da palavra, devem ter colocado alguma poção mágica no livro que escreveram juntos, pois não consegui desgrudar dele até a última página.

2.05.2009

Lenora, de Heloísa Prieto


Heloísa Prieto tem na bagagem mais de quarenta títulos publicados para crianças , jovens e adultos. É fascinada confessa por autores de suspense como Bram Stocker e Edgar Allan Poe. Deste último, emprestou para a epígrafe do seu mais recente livro: LENORA (Ed. Rocco - Jovens Leitores), os seguintes versos:
"Ah, foi rompida a taça dourada! Teu espírito escapou eternamente!
Que dobre o sino! Uma santa alma já cruza o rio Estígio!
E, tu, Guy de Vere, não vertes lágrimas? Chores agora ou nunca mais!
Veja, no terrível esquife jaz teu amor, Lenora!
Leiam-se ritos funerários e o canto derradeiro,
Um hino à mais nobre rainha, a mais jovem a partir,
Que duplamente morreu, ainda tão jovem ao sumir."
A bela epígrafe dá um pouco o tom da narrativa, que se passa entre os anos 70 e os dias atuais. Mais precisamente 2006. Mas o livro começa mesmo com a seguinte pergunta:
Qual foi a mais estranha, horrível e desastrosa de todas as decisões que você já tomou na vida? Pergunta que, aliás, está de maneira subliminar em quase todo o texto.
A narrativa é fluida e deliciosa, cheia de referências vindas do universo da literatura como o citado Allan Poe, e também do rock, como o camaleão David Bowie, os Rolling Stones, entre outros nomes.
Este livro fala de sonhos, desejos, amizades, amores, desamores, tragédias, mitos e místicas. Retrata o período de efervescência cultural dos anos 70 e suas experimentações, e também uma geração um pouco mais pessimista, ou sem perspectivas, dos nossos dias. No entanto, há uma comunicação direta entre àquela e esta, seja pela reverência dos mais jovens aos anos 70, seja pela busca de um caminho, de um rumo a seguir.
Quem ler o livro de Heloísa, irá conhecer a estranha história dos amigos Ian, Duda, Peninha e Lenora. A história da banda que montaram e o que está por detrás dos desejos e sonhos de cada um deles. Também o leitor irá conhecer a história de uma outra Lenora, que vive em 2006 e sua relação com a Lenora da década de 70.
Prieto sabe como contar uma história e faz de LENORA um livro que deveria constar na biblioteca de qualquer jovem leitor e, por que não, de leitores adultos? Afinal de contas uma boa história não tem idade, não é mesmo?

O Menino e o Boi do Menino, de Cyro de Mattos


A belíssima prosa poética de Cyro de Mattos em seu O MENINO E O BOI DO MENINO (Editora Biruta) começa por nos encantar assim: "Era ainda um bezerro quando chegou ao sítio. As orelhas de gavião, recurvas nas pontas. Cresceu e virou novilho. O menino havia colocado o nome de Pintado nele". Já neste pequeno instante do texto afinadíssimo de Cyro, dá para perceber que a partir daí o menino e o boi não serão nunca mais os mesmos. Com uma prosa enxuta e densa, Cyro constrói uma narrativa para todas as idades. Não se trata de um livro fácil; tem uma melancolia que, aos poucos, nos faz entender que toda boa tristeza é na verdade o princípio da compreensão da beleza. O pai do menino, às vezes, lhe dizia que "o boi vale como ouro". E o menino ficava todo arrepiado com aquilo, vislumbrando o futuro do boi no açougue. Ao ler o livro de Cyro acompanhado pela não menos lírica ilustração de Maria Lúcia de Campos Brandão, aproximei-me do meu menino interior e desejei profundamente ser amigo daquele boi, acariciá-lo, protegê-lo. Depois desejei cuidar do menino. E, por fim, quis ser o próprio boi.
E o que melhor podem as palavras senão servir como machados a romper o que nos impede de mergulhar dentro de nós mesmos? É isso o que me fez a leitura da história do menino e o seu boi.

A Última Guerra, de Luiz Bras e Tereza Yamashita


A quatro mãos, Luiz Bras e Tereza Yamashita já nos deram livros belíssimos como A poção da Vida (Ed. LGE), Bia Olhos Azuis (Ed. Alaúde), entre outros. A dupla dinâmica vem se firmando como um dos grandes nomes da nossa literatura para crianças e jovens. Desta vez, nos apresentam A ÚLTIMA GUERRA, livro que faz parte da recém-lançada Coleção Leituras Descoladas, da editora BIRUTA; um trabalho primoroso de edição e design, que ainda conta com autores como Jorge Miguel Marinho, Luis Antonio Aguiar, Marília Pirillo, Sandra Pina e Caio Ritter.O livro de Luiz e Tereza é narrado pelo personagem Miguel, um garoto de 11, 12 ou 13 anos de idade; nem ele mesmo tem certeza disso, que acaba de perder toda a família num bombardeio. Miguel é o tipo de personagem que carrega o leitor para dentro do livro, que o tira de sua passividade e o provoca: “Não sei se posso confiar em você (...) Fecha esse livro, vai fazer outra coisa. Aposto que aí, onde você está, o dia está maravilhoso, não é? (...) Tá ouvindo as explosões lá fora? Estão cada vez mais perto.” E também nos convida a se emocionar e refletir com ele: “A cidade toda estava em ruínas: dos prédios, dos edifícios comerciais, das casas e das árvores, tudo o que sobrara eram tocos fumegantes. (...) Então, dos destroços, começaram a aparecer pessoas. Gente com o rosto desfigurado, em prantos.” E ainda: “Pra mim, gente que usa capacete e carrega uma metralhadora não pode ser considerada amiga. De jeito nenhum.”A voz do personagem é absurdamente forte. O humanismo contido no texto não é didático, muito menos piegas. É sim o sonho de paz dos autores. Um sonho poético e fantástico. O encontro de Miguel com o velho Ferreira Bueno, um sujeito misterioso e assombroso que lhe fará uma proposta, irá mudar a vida do garoto para sempre. Mas a partir daqui eu não posso dizer mais nada. Apenas que o livro de Luiz e Tereza é o tipo de obra destinada aos jovens que escapa aos enquadramentos da indústria do livro, e que merece ser lido como boa literatura que é. Pelos filhos e pelos pais.
Por fim, o leitor descobrirá que Miguel é um herói, mas um herói sem glórias ou condecorações, um herói para si mesmo. Em segredo.
Que venham outros livros da dupla!

Os Livros de Sayuri, de Lúcia Hiratsuka


O que move o texto da escritora e ilustradora Lúcia Hiratsuka é a vontade e o desejo de Sayuri, a personagem principal, em aprender com os livros, em querer decifrar e reconhecer nos desenhos e linhas as letras que formam as palavras.Sayuri quer desvendar o mistério daquelas formas, mas não pode. Na verdade, sua condição de imigrante japonesa durante a 2ª. Guerra Mundial no Brasil faz com que sua família seja vigiada e tenha que, numa cena fantástica, enterrar todos os livros de sua tradição cultural. É logo no início do texto que Sayuri com sua delicadeza e sensibilidade, diz:“Não quero que os meus pais saibam. Nem meus irmãos. Não quero que ninguém em casa saiba que escondi um livro. É tão bom ter o livro só para mim! É como encontrar um caracol na folha de alface e decidir: esse bichinho é meu, de mais ninguém.”
Deste modo, Lúcia constrói uma narrativa cheia de lirismo, economia e beleza. Imagens poéticas tanto no texto como em seus desenhos com grafite, que são belíssimos e ajudam a compor a paisagem do universo da história de Sayuri.Os Livros de Sayuri (Edições SM) fala do poder que os livros têm, do poder que tem a curiosidade e o encanto de uma criança, fala direto da memória familiar da autora, fala da busca de uma menina em decodificar as coisas, as palavras e o mundo. É Sayuri quem diz:“Vou riscando no chão do quintal. Uso uma vareta, faço riscos bem grandes, lembrando o que ensinou o professor. Cada jeito de fazer os traços. De cima para baixo, da esquerda para direita. Traço reto, traço em curva, traço que parece um pingo de chuva. Um bom jeito de estudar, assim, no chão, pena ter que apagar depois. Gosto de olhar para a minha letra. Torta, mas minha”.
Boa Leitura!

Uma Aventura Misteriosa contada a dois ouvidos atentos, de Maria José Silveira

Recebi o livro Uma aventura misteriosa contada a dois ouvintes atentos, de Maria José Silveira, editora Girafinha, e já pelo título fiquei encantado. Sentei-me no sofá só para dar uma folheada e depois lê-lo com calma. Não foi possível. Só levantei quando li: “Não é preciso acontecer tudo em uma história só!” Precisamente a última frase do livro. Mas a verdade é que muitas coisas, e muitas mesmo, já tinham acontecido nas exatas 71 páginas da novela. A agilidade concisa da prosa de Maria José me lembrou algumas passagens de As mil e uma noites, em seus melhores momentos de aventura, no fato de uma história se amarrar a outra, nos seus encadeamentos, por ser uma narrativa contada a dois ouvintes mais do que atentos; apaixonados e inquietos, com forte presença da oralidade e de uma ludicidade inventiva, de um tratamento poético do texto. Maria José envereda ainda pelos caminhos do universo maravilhoso dos contos de fadas e pelas situações fantásticas e muito bem humoradas. Nota-se esse bom humor, entre outras passagens do livro, nos nomes das personagens cheios de neologismos belíssimos: Eumesmo, Eumesma, Eletambém.
Para que o leitor tenha idéia do que estou dizendo, aqui vai um fragmento:“Parecia morto.Eles chegaram mais perto.Era um peixe bonito, grande, escamoso. E foi só olhar para os olhos dele para Eumesma perceber que ele estava só meio morto. Segurou-o firme com as duas mãos. Viu que o pobre peixe estava era engasgado”.(...)“Eumesma sabia o que fazer. Enfiou sua mãozinha na goela do peixe e de lá tirou não um, mas cinco caroços: pelo visto, o pobre peixe quase morto era um guloso”.Poderíamos dizer aqui que este brevíssimo livro de Maria José já é um dos melhores exemplos da boa literatura infanto-juvenil contemporânea brasileira. Aliás, é prosa contemporânea de qualidade, para além dessa coisa de rótulos.